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CARACTERÍSTICAS DA IGREJA VERDADEIRA

CARACTERÍSTICAS DA IGREJA VERDADEIRA


Onde pode ser encontrada hoje a igreja verdadeira e quais os seus aspectos essenciais? Em primeiro lugar devemos distinguir os vários significados da palavra igreja:

1. Todo o povo de Deus em todos os séculos, o conjunto total dos eleitos. Os Reformadores falaram disto como sendo a igreja invisível.

2. A comunidade local dos cristãos, reunidos visivelmente para adoração e ministério; este significado abrange a vasta maioria das referências à igreja (ekklesia) do Novo Testamento.

3. Todo o povo de Deus no mundo, em determinada época, talvez melhor definida como a igreja universal. Esse sentido ocorre apenas ocasionalmente no Novo Testamento (1 Co 10.32; Gl 1.13).

4. “A igreja dentro da igreja”. Notamos antes a distinção feita entre a edah (toda a congregação visível) e os gahal (aqueles dentro dela que respondem ao chamado de Deus). Jesus ensinou que o reino corresponde a este padrão: o joio está misturado com o trigo (Mt 13.24-30; 36-43). Dentro do grupo identificado com Cristo acha-se o povo de Deus, a verdadeira igreja. Não existe, então, uma igreja pura; em meio a cada igreja pode haver pessoas que não professaram a sua fé e outras cuja profissão será desmascarada no último dia (Mt 7.21-23).

Admitindo-se assim que uma igreja pura ou perfeita não é possível deste lado da glória, onde podemos descobrir o verdadeiro povo de Deus visivelmente reunido? Tradicionalmente, são reconhecidos quatro sinais da igreja autêntica.

UNA
A unidade da igreja procede de seu fundamento do único Deus (Ef 4.1-6). Todos os que pertencem verdadeiramente à igreja são um só povo e, portanto, a igreja verdadeira será distinguida por sua unidade.

Esta unidade, porém, não implica necessariamente uniformidade total. Na igreja do Novo Testamento havia uma variedade de ministérios (1 Co 12.4-6) e de opiniões sobre assuntos de importância secundária (Rm 14:1-15:13). Embora houvesse uniformidade nas convicções teológicas básicas (1 Co 15.11, BLH; Jd 3), a fé comum recebia ênfases diversas, segundo as diferentes necessidades percebidas pelos apóstolos (Rm 3.20; cf. Tg 2.24; Fp 2.5-7; cf. Cl 2.9s).

Havia também uma variedade de formas de adoração. O tipo de culto em Corinto (1 Co 14.26ss) não era comum nas igrejas palestinas, onde a adoração se baseava no modelo da sinagoga judaica e tinha um padrão mais formal, centrado na exposição da palavra escrita. Este modelo tirado da sinagoga justifica o fato de as igrejas do primeiro século serem consideradas um ramo do judaísmo. Tiago 2.2 usa até mesmo a palavra sinagoga para a reunião dos cristãos. Existem também elementos discerníveis de mais de uma forma de governo da igreja.

A verdadeira unidade no Espírito Santo de todo o povo regenerado é um fato independente da desunião denominacional exterior. O chamado para a unidade no Novo Testamento é, portanto, uma ordem para manter a unicidade fundamental da vida que o Espírito concedeu através da regeneração (Ef 4.3). Os Reformadores salientaram este ponto, distinguindo entre a igreja invisível (todos os eleitos que são verdadeiramente um em Cristo) e a igreja visível (um grupo misto de regenerados e não-regenerados). A unidade da igreja invisível é um fato consumado, concedido com a salvação.

Roma tem usado este sinal de maneira polêmica, a fim de proclamar sua unidade, comparando-a à fragmentação do protestantismo, como uma evidência de ser a verdadeira igreja. Isto, no entanto, ignora três pontos: (i) A própria Roma separou-se da igreja ortodoxa em 1054, e jamais tinha sido considerada universalmente como a única igreja verdadeira em séculos anteriores; por exemplo, a igreja celta floresceu na Inglaterra, e Patrício fundou a igreja inglesa muito antes de os missionários romanos terem chegado a Inglaterra. (ii) Os sinais devem manter-se juntos. A sucessão histórica e a unidade exterior não têm validade quando não associadas à lealdade e ao evangelho apostólico. (iii) Embora o protestantismo tenha-se mostrado às vezes necessariamente desagregador, pode ser argumentado que, através de seu desvio da doutrina bíblica, é a própria Roma que tem sido a maior causa de cismas no correr dos séculos.

As Escrituras encorajam a mais plena expressão de unidade possível entre o povo de Deus, mas elas também tornam claro que a divisão acha-se perfeitamente de acordo com a vontade divina quando a essência do Cristianismo Apostólico estiver em risco. Esta foi a razão da discórdia entre Paulo e os judaizantes (Gl 1.6-12), e entre Jesus e os fariseus (Mc 7.1-13). É significativo notar que quando Judas pretendeu escrever sobre a salvação que temos em comum, ele achou necessário insistir com os leitores para “batalhar diligentemente pela fé que uma vez foi entregue aos santos” (Judas 3). Para o Novo Testamento, a unidade está baseada em um compromisso consciente com as verdades reveladas do Cristianismo Apostólico.

O Novo Testamento dirigiu seus ensinos sobre a unidade a grupos específicos, com implicações imediatas para seus relacionamentos visíveis (Ef 2.15; 4.4; Cl 3.15). Jesus orou pela unidade, que ajudaria o mundo a crer (João 17.21); embora o paralelo entre esta unidade e a dEle com o Pai (17.11,22) confirme o caráter essencialmente espiritual da unidade bíblica, esta certamente inclui identificação visível de vida e propósito, pois Jesus em toda a sua missão expressou uma união visível e demonstrável com o Pai. Em outras palavras, é preciso buscar uma unidade visível mais plena do que aquela que está sendo experimentada pelos que são fiéis ao evangelho apostólico.

Este fato tem especial importância quando dois ou mais grupos que têm uma fé bíblica estiverem operando na mesma área, como, por exemplo, em um campus universitário. O desafio mais profundo deste ensinamento, porém, situa-se ao nível dos relacionamentos na igreja local. Nesse ambiente, a unidade da vida em Cristo deve expressar-se através do cuidado e compromisso genuínos e tangíveis de uns para com os outros. Na ausência disto, a reivindicação de ser uma verdadeira igreja cristã é posta em dúvida (1 Co 3.3s).

SANTA
O povo de Deus forma a nação santa (1 Pe 2.9). No sentido mais profundo a igreja é santa, da mesma forma que todo indivíduo cristão é santo em virtude de estar unido a Cristo, separado para ele e revestido com sua justiça perfeita. Na sua posição diante de Deus em Cristo, a igreja é irrepreensível e isenta de qualquer mancha moral. A distinção entre a igreja visível e a invisível aplica-se aqui, desde que esta santidade imputada não pertence aos membros da igreja não confiam pessoalmente em Cristo como Salvador.

A união com Cristo envolve também uma santidade de vida que seja visível. Desse modo, a relação da igreja com Cristo, o seu cabeça, será expressa no caráter moral e nas características especiais de sua vida e de seus relacionamentos comunitários. A igreja alheia à santidade é alheia a Cristo. Quando Cristo dirigiu-se à sua igreja, ele esperava dela essa mesma diferença moral e foi severo em seu julgamento quando observou que ela lhes faltava (Ap 2.-3).

A fim de não desanimarmos ao aplicar este teste, vale a pena lembrar que grande parte da vida da igreja do Novo Testamento foi eivada de erros, divisões, falhas morais e instabilidade. Não obstante, a presença de um sinal visível de santidade é uma característica invariável da igreja de Deus.



CATÓLICA
O termo católico significa literalmente abrangendo ao todo. E em seu uso primitivo, significava ser a igreja universal, distinguindo-a da local; mais tarde, veio significar a igreja que professava a fé ortodoxa, em contraste com os hereges. Com o passar do tempo, Roma adotou o termo para referir-se a si mesma como instituição eclesiástica, centrada no papado, historicamente desenvolvida e geograficamente difundida. Os reformadores do século dezesseis procuraram restaurar o significado anterior da catolicidade, em termos do reconhecimento da fé ortodoxa; nesse sentido, argumentavam eles, a igreja católica era de fato eles e não Roma.

O principal aspecto da catolicidade da igreja primitiva estava na sua abertura para todos. Distinta do judaísmo, com seu exclusivismo racial, e do gnosticismo, com seu exclusivismo cultural e intelectual, a igreja abriu seus braços a todos que quisessem ouvir a mensagem e aceitar seu salvador, sem levar em conta cor, raça, posição social, capacidade intelectual e antecedentes morais. Ela surgiu no mundo como uma fé para todos (Mt 28.19; Ap 7.9). A única exigência para admissão era a fé pessoal em Jesus Cristo como Salvador e Senhor, com o batismo como o rito autorizado de entrada, porque manifestava o evangelho da graça (Mt 28.19; At 2.38,41).

É neste nível fundamental que esta característica (a de ser católica) deve ser entendida. As igrejas que exigem outros testes devem ser consideradas como suspeitas. Não existe lugar numa verdadeira igreja para a discriminação de qualquer tipo, seja racial, de cor, social, intelectual ou moral, neste último caso desde que haja evidência de verdadeira arrependimento. A discriminação denominacional também precisa ser examinada com cuidado nos casos em que as doutrinas fundamentais bíblicas sejam claramente reconhecidas.



APOSTÓLICA
O apóstolo é uma testemunha do ministério e da ressurreição de Jesus; é um arauto autorizado do evangelho (Lc 6.12s; At 1.21s; 1 Co 15.8-10). Os arautos tomam posição entre Jesus e todas as gerações subseqüentes da fé cristã; nós só nos achegamos a ele por meio dos apóstolos e de seu testemunho sobre ele, incorporado no Novo Testamento. Neste sentido fundamental, toda a igreja é “edificada sobre o fundamento dos apóstolos” (Ef 2.20; cf. Mt 16.18; Ap 21.14). A apostolicidade da igreja encontra-se, portanto, no fato de ela conformar-se à fé apostólica “que uma vez por todas foi entregue ao santos” (Jd 3; cf. At 2.42). Os apóstolos ainda governam e organizam a igreja na medida em que esta permite que sua vida, seu entendimento e sua pregação sejam constantemente reformados pelos ensinos das Sagradas Escrituras.

Desde que o apóstolo significa literalmente enviado, não é de surpreender que o Novo Testamento refira-se ocasionalmente a outros apóstolos (Rm 16.7). Neste sentido geral, todos os que são hoje enviados pelo Senhor como evangelistas, pregadores, iniciadores de igrejas, etc. são no grego do Novo Testamento, apostoloi, enviados. Isto não subentende de forma alguma que eles tenham uma posição de autoridade especial, competindo com a do grupo original cujo governo continua através das escrituras apostólicas. Reivindicar o cargo apostólico em nossos dias é compreender erradamente o ensino bíblico e oferece na prática um desafio grave com respeito à autoridade e finalidade da revelação divina do Novo Testamento.

É igualmente errado entender a apostolicidade como uma continuidade histórica do ministério, retrocedendo até Cristo e seus apóstolos através de uma sucessão de bispos. Esta interpretação não tem nenhum apoio bíblico. Toda noção da graça de Deus comunicada mediante uma sucessão histórica de dignatários da igreja contraria o caráter da própria graça, conforme os escritos bíblicos. Além disso, como garantia da verdade da mensagem apostólica, a sucessão episcopal evidentemente falhou. Foi uma igreja perfeitamente enquadrada nesta sucessão histórica que precisou da Reforma do século dezesseis, para não mencionar outras reformas menores, como o despertamento do século dezoito com Whitefield e os Wesleys.

O catolicismo romano estende esta interpretação de “apostólico” para incluir a reivindicação de que o Bispo de Roma é o sucessor histórico de Pedro e o guardião especial da graça de Deus na igreja. A alegação é insustentável. A primazia de Pedro entre os apóstolos não passou de uma clara liderança no período da primeira missão cristã. Ele claramente recuou para um segundo plano à medida que a igreja avançou fora de Jerusalém, sendo Paulo nomeado para liderar a missão fora da Palestina e quando João lutava para corrigir as igrejas prejudicadas pelos falsos mestres. É bem significante que Pedro não apareceu no papel principal no Concílio de Jerusalém (At 15), e que ficou claramente à sombra de Paulo no incidente registrado em Gálatas 2.

Roma alega ainda que esta suposta supremacia de Pedro deveria continuar para a salvação eterna e bem contínuo da igreja. Nenhum dos versículos citados como apoio escriturístico (Mt 16.18s; Jo 21.15-17 e Lc 22.32) faz qualquer referência a um sucessor de Pedro. Essas duas reivindicações romanas contrariam a evidência manifesta no Novo Testamento, e a terceira, de que a primazia de Pedro se estende ao bispo de Roma, é ainda menos digna de crédito. O fato de Pedro ter terminado sua vida como mártir em Roma é uma tradição primitiva que encontra apoio razoável; as dificuldades histórica, porém, para mostrar que houve uma sucessão estabelecida de bispos monárquicos de Roma, a partir do primeiro século, são intransponíveis.

A sucessão apostólica é na verdade a sucessão do evangelho apostólico, quando o depósito original de verdade apostólica é passado de uma para outra geração: “homens fiéis ... para instruir a outros” (2 Tm 2.2). A igreja é apostólica à medida que reconhece na prática a autoridade suprema das escrituras apostólicas.



OS SINAIS DOS REFORMADORES
Embora os Reformadores não pusessem de lado esses quatro sinais tradicionais, as controvérsias em que se viram envolvidos prenderam sua atenção em outras coisas. Eles identificaram duas características da igreja verdadeira e visível. “Onde quer que vejamos a Palavra de Deus pregada e ouvida em toda a sua pureza e os sacramentos ministrados segundo a instituição de Cristo, não há dúvida de que existe uma igreja de Deus” (João Calvino).

“A Palavra pregada em toda a sua pureza” trouxe à tona a supremacia do evangelho bíblico e forma precisamente nesse ponto que surgira a verdadeira ruptura com Roma. Atrás desta ênfase havia uma convicção quanto ao elo indissolúvel entre a Palavra escrita e o Espírito; pertencer à comunidade do Espírito iria necessariamente refletir a submissão à Palavra que o Espírito havia inspirado. Os Reformadores desconheciam qualquer Espírito que não levasse à Palavra; desconheciam qualquer amor por Deus que não estivesse ligado à fé e à verdade. O outro ponto em que discerniram a verdadeira igreja, os sacramentos, era também polêmico, já que foi no aspecto do ensino e da prática com relação aos sacramentos que os Reformadores viram a mais clara violação da religião bíblica por parte de Roma.

A existência de grupos cristãos (p. ex. o Exército da Salvação e a Sociedade dos Amigos) que não possuem sacramentos faz-nos hesitar quanto à afirmação de que os sacramentos são essenciais para que a igreja seja verdadeira. Não obstante, nosso Senhor claramente considerou o batismo como intimamente ligado à mensagem da igreja e à resposta humana a ela (Mt 28.19s), e a participação na Ceia como fundamental para a vida da igreja (Lc 22.19; 1 Co 11.24s).

Podemos generalizar esses sinais afirmando que o sinal supremo para os Reformadores era o próprio Cristo. Ele é o centro da Palavra e o cerne dos sacramentos.

A MISSÃO – UM SINAL AUSENTE?
Nas instruções de Jesus sobre a vida da igreja (Jo 13-16; Lc 10.1-20; At 1.1-8), encontramos um elemento não abordado nas características da igreja identificadas até agora, que é a missão: a responsabilidade de levar as boas novas de Jesus aos confins da Terra.

Existe certamente grande significado no fato de a história da igreja do Novo Testamento, o livro de Atos, Ter como seu tema principal a expansão sucessiva na pregação do evangelho: Jerusalém, Judéia, Samaria, e, em seguida, o mundo gentio (1.8; cf. 6.8s; 7; 8; 10.34-38; 11.19-26; 13.1ss). A igreja é missão talvez seja uma frase exagerada, mas em seu serviço total ao propósito e à glória de Deus, a missão é um ingrediente bíblico fundamental.

Assim sendo, uma igreja que não prega o evangelho não sente a responsabilidade pelo bem-estar moral e espiritual dos que a rodeiam, nem expressa interesse pelos pobres e necessitados onde quer que eles sejam encontrados, perdeu seu direito à autenticidade, constituindo-se numa negativa viva de seu Senhor.

Para resumir: a verdadeira igreja será reconhecida pela sua unidade nos relacionamentos, pela sua santidade de vida, pela sua abertura a todos, pela sua submissão à autoridade das escrituras, pela sua pregação de Cristo em palavras e sacramentos, e pelo seu compromisso com a missão

A IGREJA, O CRISTÃO E A POLÍTICA

A IGREJA, O CRISTÃO E A POLÍTICA



A IGREJA

A igreja de Cristo é a agência do Reino de Deus na terra. O apóstolo Pedro em sua primeira epístola nos dá o perfil da igreja de Cristo em sua essência quando se referindo a ela afirmou que a igreja é a “...geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; Vós que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia” (I Pe. 2.9-10). Deus elegeu Israel para ser o seu povo, mas Israel não correspondeu ao amor de Deus. Deus elegeu então a igreja em Cristo Jesus para tornar-se eternamente o seu povo. “Fui buscado dos que não perguntavam por mim; fui achado daqueles que me não buscavam. A um povo que se não chamava do meu nome eu disse. Eis-me aqui” (Isaias 65:1). É glorioso sabermos que somos um povo do qual Deus inspirou escatologicamente ao profeta para expressar que este povo estranho o buscaria de tal modo, que Deus se faria presente. Em Cristo se cumpriu a profecia de Isaias e Jesus orando por seus discípulos deixou bastante claro quando se expressou dizendo: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me hás amado antes da fundação do mundo. Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci; e estes conheceram que tu me enviaste a mim. E eu lhes fiz conhecer o teu nome, e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles e eu neles esteja” (João 17: 24-26).

A igreja é a grande eleita na eleição de Deus. Voltando ao texto de Pedro verificamos que o apóstolo deixou bem claro e definido critérios para serem observados pela igreja de Cristo como geração eleita de Deus. “Sujeitai-vos pois a toda a ordenação humana por amor do Senhor: quer ao rei, como superior; quer a governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem. Porque assim é a vontade de Deus que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens loucos; como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus”. E Pedro conclui dizendo: “Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai ao Rei. (I Pe 2:13-17). A luz deste texto entendemos que é a vontade de Deus que Sua igreja, respeite os poderes constituídos. O testemunho da igreja deve está de tal modo evidenciado, que possamos tapar a boca dos homens ímpios. O sacerdócio real está sobre a igreja e como sacerdotes e profetas de Deus que somos, devemos ser instrumentos de transformação do mundo pelo amor. Devemos colocar as autoridades diante de Deus, conforme o Apóstolo Paulo chamou à atenção de Timóteo, dizendo: “Admoesto-te pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações intercessões, e ações de graças por todos os homens; Pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade. Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador.” (I Tim. 2:1-3). Aí está o grande ensino do Novo Testamento para o comportamento da igreja como povo de Deus. Escrevendo a Tito, o apóstolo Paulo reportou-se ao mesmo assunto, dizendo: “Admoesta-os a que se sujeitem aos principados e potestades, que lhes obedeçam, e estejam preparados para toda a boa obra; que a ninguém infamem, nem sejam contenciosos, mas modestos, mostrando toda a mansidão para com todos os homens”. (Tito 3:1-2). Diante destes textos concluímos que Deus abomina a desobediência às autoridades que por Ele mesmo foram constituídas sobre as nações e Reinos. “...afim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre os reinos dos homens, e os dá a quem quer, e até ao mais baixo dos homens constitui sobre eles” (Dan. 4:17).

O CRISTÃO

Não deve haver dicotomia entre o comportamento pessoal do cristão diante dos poderes constituídos e o comportamento da igreja de Cristo como todo. Isto significa que a orientação da igreja segue a revelação de Deus sobre o assunto, e como tal deve ser obedecido por todos os membros do corpo de Cristo. Imaginemos uma mão intencionando fazer uma coisa e a outra mão intencionando fazer outra coisa. Ambas não realizariam nada porque não poderiam atuar em projetos diferentes. Ou, se a cabeça ordenasse a mão que se posicionasse numa determinada direção e a mão se dirigisse em outro sentido. Nada se realizaria. Igualmente o corpo de Cristo que é a igreja não poderá se dissociar dos ensinos da Palavra revelada. Deve haver coerência, metas e objetivos a serem alcançados. Assim, os mesmos princípios aplicados a igreja devem ser aplicados a todos os crentes isoladamente.

A participação do crente na política tem sido muito questionado em nossos dias. O que mais chama à atenção da comunidade cristã no exercício dos cargos eletivos, é que os testemunhos daqueles que tem alcançados os cargos públicos. Tanto na área do legislativo como do executivo, e até mesmos em cargos de confiança dos governos, tanto a nível federal como estadual, tem deixado muito a desejar, pelo menos é o que temos observado entre muitos dos que tem sido eleitos.

Após a abertura democrática no país, verificamos uma crescente ascendência de evangélicos ingressando na carreira política. Ao mesmo tempo temos visto que muitos destes irmãos não conseguiram sua reeleição, em eleições posteriores, pelo simples fato de terem fracassado como políticos. Muitos escandalizaram o evangelho de tal modo que tornaram-se opróbrio no meio do povo de Deus. Decepção e escândalo para o evangelho e para a Igreja de Cristo. Não estavam aptos para exercerem os cargos eletivos à luz da palavra e testemunho do evangelho como sal da terra e luz do mundo. O seu sal tornou-se insosso para a terra e a luz apagou-se no meio das trevas.

O crente pode e deve encarar a carreira política como algo natural, como se fosse uma outra carreira qualquer, dentro da nossa sociedade. Os cargos eletivos e de confiança nos diversos escalões do governo estão tanto para o ímpio como para o cristão. E, a Bíblia em nenhum momento menciona a desaprovação de Deus quanto a fazer acepção de pessoas, para o exercício do poder. Na história do povo hebreu vimos que José foi vendido por seus irmãos. No Egito ele não se corrompeu diante das tentações da mulher do Ministro Potifar e pagou caro pela sua fidelidade ao seu Deus. Foi preso e castigado, mas levantou-se quando o Rei precisou de quem interpretasse o seu sonho. José interpretou o sonho e em seguida foi nomeado Governador, tornando-se uma benção para o Egito e mais tarde para o povo hebreu. (Gen. 41:38-40).

No cativeiro babilônico Daniel preferiu não se alimentar dos manjares do rei. Tornou-se tão belo e forte quanto os demais cativos do reino destinados a serem instruídos nas letras e língua dos caldeus. (Dan. 1:4). Daniel foi ricamente abençoado por Deus no meio de um povo estranho tornando-se príncipe no meio deste povo estranho (Dan. 6:2). Foi condenado a cova dos leões, mas não se prostrou, nem prestou adoração ao rei Dario, antes manteve-se fiel a Deus. Passada a noite Daniel manteve-se vivo pela proteção de Deus que fechou a boca dos leões. Daniel saiu amparado pelo Rei Dario que já havia se arrependido de seu edito. Agora fez um novo decreto publicado e divulgado para cumprimento em todo o domínio do império para que todos os homens temessem e tremessem diante do Deus de Daniel. “...porque ele é o Deus vivo e para sempre permanente, e o seu reino não se pode destruir; o seu domínio é até o fim. Ele livra e salva, e opera sinais e maravilhas no céu e na terra; ele livrou Daniel do poder dos leões” (Dan. 6:26-27). Deus foi glorificado na vida de seu servo Daniel. O cristão glorifica a Deus e é uma benção para os homens e para as nações quando se mantém fiel ao Senhor.

A POLÍTICA

A política é um instrumento da democracia. A pluralidade de partidos pressupõe que existe livre-arbítrio, a ser exercido pelo povo que deve conscientemente escolher seus mandatários em escrutínio livre e secreto. Nos regimes totalitários de qualquer ideologia, não existe a liberdade democrática. Os governos são impostos pela força ou são transferidos por hierarquia. A democracia está coerente com a Palavra de Deus, porque Deus fez o homem livre. Deus abomina a escravidão, a servidão, o cativeiro, e a opressão tanto físico material, como espiritual. “Se pois o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36). Segundo, o autor Justo Gonzalez em sua coleção “Uma História Ilustrada do Cristianismo”, os imperadores romanos acusaram os cristãos de haverem desestabilizado o Império Romano, com o que tenho concordado plenamente. O cristianismo tem transformado o homem e tem mudado a história do mundo. A oração do justo pode muito em seus efeitos. O clamor da igreja derruba impérios, muros e regimes totalitários. A igreja pode mudar a história política na medida que ela coloca os povos diante do trono de Deus. Cometemos um erro grave quando imaginamos que teremos reinos de paz, justiça, tranqüilidade ou de equilíbrio econômico-social. As promessas de Deus são para a igreja de Cristo. Novos céus e nova terra (Apoc. 21:1-7).

A política é a manifestação do pensamento do homem. Ela é necessária nos regimes democráticos porque politicamente o homem pode expressar a sua vontade, aliada a vontade do grupo. A maioria partidária leva ao poder. Ainda que não seja o método mais apropriado não conhecemos outro e deste modo ele é justo.

Samuel e Deus discordaram do desejo do povo de Israel quando pediram um rei, pelo simples fato de todos os demais povos terem seus reis. Deus era o Rei de Israel. Deus estava à frente de seu povo e pelejava por ele. Não havia justificativa para exigir-se um rei. Deus acabou atendendo ao clamor de Israel e o reinado foi um fracasso (Sam. 8:5). A política como instrumento democrático deveria ser utilizada para ser uma benção para todos os povos, no entanto tem sido mais um instrumento de corrupção e de ambição. Os políticos tem legislado mais em benefício próprio do que em benefício do povo. Enquanto o povo não souber escolher bem seus representantes não terão dias melhores. O povo tem o governo que merece, diz um adágio popular, porque uma vez escolhido os governantes de modo errado, só resta democraticamente suportá-los, até nova oportunidade de mudá-los. Em qualquer situação os governos humanos serão apenas um paliativo para o problema do homem. Somente Deus através de Jesus tem a solução

FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DA IGREJA

FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DA IGREJA



Podemos distinguir quatro padrões gerais, embora muitos grupos não se enquadrem exatamente em nenhum deles.

1. Episcopal

É o governo por meio de bispos (episkopoi). É a ordem adotada pelas igrejas anglicana, luterana, metodista (esta com modificações). Um ministério triplo é mantido, abrangendo bispos, pastores (principalmente o clero local, que exerce a liderança nas igrejas e nas paróquias) e diáconos/diaconisas, que trabalham como auxiliares da igreja. Na prática, os diáconos são quase sempre pastores-aprendizes. Só os bispos podem ordenar outros para o ministério e eles traçam a sucessão através dos séculos. Este sistema não tem como reivindicar base bíblica, no sentido de que o Novo Testamento apresente alguma exigência indiscutível quanto ao assunto. Os estudiosos de todas as tradições aceitam hoje a idéia de que os termos episkopos (bispo) e prebyteros (ancião) são equivalentes no Novo Testamento (At 20.17,28; Fp 1.1; Tt 1.5,7). Assim sendo, a idéia da palavra bispos no Novo Testamento não é em geral aquela encontrada no sistema episcopal. Eles eram oficiais da igreja local, havendo quase sempre alguns servindo na mesma igreja, segundo o modelo dos anciãos do Antigo Testamento, na sinagoga judaica.

Por outro lado, as igrejas episcopais destacam dois fatores significativos como apoio ao sistema. Primeiro, a presença de ministérios na igreja primitiva que transcendiam os da igreja local. Os apóstolos são o exemplo supremo neste caso; os profetas parecem ter às vezes atuado nesse sentido. Timóteo, Tito e Tiago são vistos como exemplos especiais dessa terceira dimensão do ministério do Novo Testamento, desde que foram claramente investidos de responsabilidade sobre várias igrejas. Segundo, não pode haver dúvida de que a ordem de ministério tríplice retroceda quase até a era apostólica, sendo em meados do segundo século o padrão praticamente universal para o ministério cristão. Quando a igreja teve de enfrentar a perseguição extrema e a heresia em seu próprio meio, ela reforçou sua liderança oficial, principalmente o episcopado, a fim de fazer frente a esses desafios. Trata-se, portanto, de uma forma de ministério que provou ser de considerável valor para a igreja no decorrer dos séculos.

2. Presbiteriano

O governo por meio de anciãos (presbyteroi) caracteriza as igrejas Reformada e Presbiteriana em todo o mundo e, com certas modificações episcopais, o Metodismo. Os anciãos se reúnem geralmente num corpo central, como uma assembléia nacional, e nos presbitérios locais, com jurisdição sobre territórios geograficamente menores. Uma forma de presbiterianismo também opera onde uma igreja local é administrada por um grupo de líderes nomeados. Esta forma reivindica autorização bíblica direta, baseada no padrão do Novo Testamento, onde presbíteros são nomeados nas igrejas locais. Esses líderes aparecem consultando os apóstolos no Concílio de Jerusalém, em Atos 15. Entre os presbíteros na congregação local, um pode ser escolhido como presbítero-mestre, para administrar a Palavra e os sacramentos, à parte dos outros presbíteros administradores, que participam da liderança com ele (1 Tm 5.17). Em termos gerais, o governo é quase sempre exercido por um sistema de presbitérios, sínodos e concílios. O presbiterianismo também reconhece o direito de cada igreja participar da escolha dos pastores. Os diáconos realizam um ministério de apoio, ligado aos assuntos administrativos da igreja. De modo diferente dos episcopais, todos os pastores têm formalmente o mesmo status.


3. Congregacional (Independente)

É o governo através da igreja local em conjunto, seguido pelas igrejas batistas, congregacionais, pentecostais e outras igrejas independentes. A igreja local é a unidade básica: nenhum líder ou organização pode exercer qualquer autoridade sobre ela. Todas as decisões são tomadas por toda a igreja; o pastor, os diáconos e os presbíteros (se houver) acham-se no mesmo nível que os demais membros. Cada igreja local tem liberdade para interpretar a vontade de Deus sem interferência de outras igrejas ou grupos, embora na prática a maioria das igrejas independentes se una com outras de interesse comum. A ordenação para o ministério pode ser efetuada sem o envolvimento de outras igrejas, apesar de isso ser raro na prática; muitos congregacionalistas consideram essencial uma representação mais abrangente. O ministério é geralmente duplo, com pastores e diáconos, embora em alguns casos o pastor divida a responsabilidade espiritual com vários presbíteros. Algumas igrejas do tipo congregacional põem em dúvida a validade da idéia de nomear um determinado indivíduo para ministrar na congregação local.

Os congregacionalistas se baseiam no significado da igreja local no Novo Testamento. Como vimos, a Escritura faz uso da mesma linguagem, relativa à natureza da igreja, tanto para se referir à igreja local como à igreja universal. Além disso, não existe no Novo Testamento qualquer evidência quanto à imposição de grupos mais amplos ou oficiais de fora sobre a vida da igreja local, excetuando-se evidentemente os apóstolos ou seus representantes pessoais, como Tito e Timóteo. Subjacente a isso, acha-se a convicção de que a liderança de Cristo na igreja implica sua presença imediata entre o povo e o poder de transmitir a sua vontade sem a mediação de qualquer outro agente, quer pessoal ou corporativo.

Na prática, o congregacionalismo reconhece o valor da comunhão mútua e da cooperação entre as igrejas, embora não a ponto de restringir a suprema liberdade do grupo local para agir conforme a vontade do Senhor, segundo o seu discernimento.

4. Católico-Romano

O catolicismo é essencialmente uma expressão histórica específica do episcopalianismo. Existem sérios desvios das normas bíblicas em sua compreensão da igreja. O aspecto singular da organização católica é a primazia do Bispo de Roma, o Papa. A Igreja Católica difere outrossim das igrejas reformadas em seu conceito de um sistema eclesiástico sacerdotal, também encontrado nas igrejas ortodoxas do oriente e em algumas igrejas anglicanas.

Ministérios Eclesiásticos

Ministérios Eclesiásticos

Introdução

Ministério

Apóstolos

Profetas

Evangelistas

Pastores

Mestres

Trabalho ministerial em equipe

Diáconos

Conclusão.

Bibliografia



INTRODUÇÃO

Alguns animais vivem totalmente isolados. Não se associam nem com outros da sua própria espécie, exceto, com a mãe no primeiro período da vida e com a companheira (o) durante o cio. O ser humano, ao contrário, é gregário. Vive em grupos. Tal associação é necessária a fim de alcançar objetivos que, individualmente, não seriam possíveis. Além disso, a própria natureza humana sente necessidade do companheirismo e do amor. Depois de haver criado Adão, Deus disse : "Não é bom que o homem esteja só." Quem insiste em se isolar luta contra o bom senso e torna-se infeliz. Como disse Salomão, aquele que se separa insurge-se contra a verdadeira sabedoria. (Pv.18:1).

Contudo, viver em grupo tem também seus problemas e cria novas necessidades. O primeiro problema é a direção a ser tomada. Se são muitos os componentes do grupo, muitas são as cabeças e diversas as opiniões. Por isso, são necessários os líderes. Não para fazer a sua própria vontade, mas para interpretar a vontade do grupo e viabilizar sua execução. Esta é uma dura tarefa. Exige sabedoria e bom senso, porque pode ser que o grupo esteja enganado quanto aos seus propósitos. Por isso, o líder precisa ter capacidade e preparação superior a média do grupo, a fim de poder conduzi-lo de modo eficaz. Outra necessidade que surge com o grupo é divisão de tarefas. É preciso identificar habilidades, talentos e atribuir responsabilidades.

A liderança é necessária em qualquer empreendimento coletivo. A igreja não é uma excecão. O líder da igreja é , em última instância, o Senhor Jesus. Ele é a cabeça da igreja. (Ef.1:20-23). Entretanto, os homens ainda precisam de líderes visíveis; precisam de modelos humanos e direção humana, uma vez que nem sempre estão aptos a ouvir a ordem direta de Deus. Por isso, Deus instituiu ministérios na igreja. O que é um ministério ? Quais são os ministérios estabelecidos por Deus ? Tal liderança é ainda necessária nos nossos dias ? Como está a realidade das igrejas em relação a tudo isso ?

Neste estudo procuraremos respostas a essas questões. Precisamos obtê-las urgentemente, pois a indefinição nesse assunto tem causado problemas diversos na obra de Deus e dificultado a expansão do seu Reino.

Anísio Renato de Andrade



MINISTÉRIO

Entre outras informações, o dicionário da língua portuguesa nos diz que ministério é "trabalho ou serviço na igreja". Biblicamente, entendemos que todo serviço cristão que se desempenha de modo contínuo é um ministério. Desde a liderança até tarefas operacionais permanentes. Um trabalho eventual não pode ser assim considerado. Eis aí um fator que serve até para diferenciar ministérios e dons espirituais.

Existem quatro termos gregos que se relacionam ao vocábulo "ministro" e "ministério". São eles :

- huperetai (huperetai)

- leitourgos (leitourgos)

- sunergon (sunergon)

- diakonos (diakonos)

Paulo emprega quase que invariavelmente, diakonos. O termo aparece, nas quatro formas, 25 vezes no Novo Testamento.

A forma "diakonia" aparece 24 vezes, sendo traduzida por :

- Distribuição de serviço, socorro, serviço, ministério ou administração.

Os ministérios de liderança apresentados no Novo Testamento são :

- Apóstolos

- Profetas

- Evangelistas

- Pastores (bispos, presbíteros)

- Mestres (Efésios 4:11)

Os diáconos são apresentados como auxiliares. Eles não dirigem a igreja local, mas são responsáveis por algumas áreas. (At.6).

Ministério é serviço. Logo, o ministro é um servo. Algumas vezes, o apóstolo Paulo usou o termo doulos (doulos), que significa escravo. "Onde está pois a jactância ?" O Verdadeiro espírito do ministro, não deve ser a ambição carnal de mandar ou ser servido, mas encarnar o que Jesus sempre fez no seu ministério terreno, que foi "não ser servido, mas servir". (Mc.10:45).

Quando os discípulos disputavam entre si para saber quem era o maior, Jesus "os chamou para junto de si e disse-lhes : sabeis que os que são considerados governadores dos povos, têm-nos sob seu domínio, e sobre eles seus maiores exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; quem quiser ser o primeiro entre vós, será servo de todos." (Mc.10:41-44).

Apesar das especificações bíblicas, as igrejas e denominações estabelecem alguns ministros e desprezam ou ignoram os demais.

Os Metodistas têm bispos e pastores.

Os Presbiterianos, Assembléia de Deus e outras igrejas pentecostais têm pastores, diáconos e presbíteros.

Os Batistas têm somente pastores e diáconos.

Na seqüência, procuraremos explicitar alguns detalhes de cada um dos ministérios supracitados.

APÓSTOLOS

O nome que designa o primeiro ministério estabelecido na igreja (I Cor.12:28) é de origem grega (apostolos) e significa "enviado", ou seja, um indivíduo que executa serviço especial, agindo em nome e pela autoridade de quem o enviou.

O maior de todos os apóstolos é o próprio Senhor Jesus, que foi enviado pelo Pai para executar sua obra na terra. (Heb.3:1 Jo.4:34). Para que essa obra fosse continuada após sua ascensão, Jesus escolheu doze homens. (Mt.10:1-2 Jo.20:21). Um deles, Judas Iscariotes, o traiu e foi substituído por Matias. (At.1:16-26). Tais homens foram equipados pelo Senhor com autoridade, poder para operar milhagres, ousadia para pregar, etc. Tudo isso, mediante a operação do Espírito Santo que lhes fora dado (At.1:8). toda essa "munição" tinha por objetivo capacitá-los a desbravar todas as frentes por onde iam e aí estabelecerem a igreja de Jesus Cristo. Muitos cristãos afirmam que o ministério apostólico não existe mais. Entretanto, observamos que, além dos doze, o Senhor levantou outros apóstolos no período do Novo Testamento, como, por exemplo, Paulo e Barnabé. (At.14:14). Por quê ele não o faria ainda hoje, quando muitos povos estão ainda por serem alcançados pelo evangelho ?

O apóstolo não é um cacique ou um papa. Donald Gee diz : "Esse ministério exigia praticamente que um apóstolo reunisse quase todos os outros ministérios num só homem. Assim, ele participava da inspiração do profeta, fazia a obra de um evangelista, conhecia o pastoral "cuidado de todas as igrejas", devia ser apto para ensinar, ao passo que, atendendo `a administração de negócio, seguia o exemplo do Senhor em não se esquivar dos deveres de um diácono, quando fosse necessário."

Possivelmente, muitos dos missionários da atualidade sejam, de fato, apóstolos de Jesus. Outros há que, por não terem ido a terras distantes, não são assim reconhecidos, mas estão desempenhando esse ministério em sua própria "Jerusalém" (At.1:8), e receberão do Senhor o devido galardão.

PROFETAS

O profeta é a pessoa que recebe a mensagem diretamente de Deus e a transmite ao povo. Esse anúncio pode ser uma revelação, uma admoestação, ou uma predição.

Muitos profetas existiram na história de Israel. Sua presença é constante no Velho Testamento, apontando o caminho para o povo de Deus. Sua importância era grande pois, como afirmou Salomão, "Sem profecia o povo se corrompe". (Pv.29:18). No Novo Testamento, Deus continuou levantando profetas. O primeiro foi João Batista, que veio no estilo dos profetas antigos, assemelhando-se , sobretudo, a Elias. (Lc.1:76 Mt.11:9-14 Mc.11:32). Seu papel foi preparar o caminho para o profeta maior - Jesus, que, por sua vez, levantou outros profetas para orientar a igreja que surgia. No Novo Testamento, existem menções a esse ministério, havendo muitos deles em Jerusalém, Antioquia, Corinto, e outras cidades. (At.13:1 At.11:27 I Cor.14:29).

O profeta não é um mero pregador da palavra, um mestre da Bíblia, nem um preditor de futuro. O profeta é um ministro de Cristo. Não apela para os poderes da lógica, erudição, oratória, psicologia, igorância ou misticismo. Sua mensagem pode vir através de uma pregaçao, mas não necessariamente.

EVANGELISTAS

É uma pessoa dotada de capacidade especial para pregar o evangelho. Alguns usam esse título apenas em relação aos escritores dos quatro evangelhos. A Bíblia, no entanto, cita ainda Filipe e Timóteo como evangelistas. (At.21:8 II Tm.4:5).

Todos os cristãos podem e devem anunciar o evangelho. Todavia, a maioria não é capaz de fazer uma pregação propriamente dita. O evangelista é um pregador, e faz isso com maestria, habilidade, e poder que lhe são conferidos pelo Espírito Santo especialmente para esse fim. Evidentemente, nem todo pregador é evangelista. É bom frisarmos também que o trabalho do evangelista não se restringe à pregação, mas abrange também o evangelismo pessoal.

Consideramos que todo apóstolo é um evangelista, mas nem todo evangelista é apóstolo. O ministério apostólico é mais abrangente e extrapola os limites da igreja local.

PASTORES

Voltando à origem do termo, um pastor é a pessoa que cuida de um rebanho de ovelhas. Seu trabalho vai desde a procura do melhor alimento para elas, até a defesa contra ladrões ou animais selvagens que possam atacá-las. Abel foi o primeiro pastor de ovelhas. Os patriarcas - Abraão, Isaque e Jacó - foram pastores. Esse trabalho era muito comum no meio dos israelitas e outros povos antigos. O próprio Davi, que veio a ser rei de Israel, cuidava de ovelhas quando era jovem, e percebeu que, da mesma forma, Deus cuidava dele e de seu povo. Ao reconhecer esse fato, Davi escreveu o conhecido Salmo 23 : "O Senhor é o meu pastor e nada me faltará".

Em muitos outros textos da Bíblia, o termo "pastor" é utilizado em referência a Deus e aos líderes do seu povo. (Sl.100:3 Jr.23:1-2). No Novo Testamento, esse título já era usado normalmente como o usamos hoje. Jesus disse de si mesmo : "Eu sou o bom pastor". (Jo.10:11). O termo grego para pastor é poimen (poimén).O ministério do pastor na igreja tem as atribuições que vimos no início : alimentar, cuidar, proteger, defender, conduzir. Esse é um ministério lindo. Dos cinco ministérios de Efésios 4:11, o pastor é o que está mais próximo da ovelha, mais comprometido e mais atencioso para com ela. Nos nossos dias, constatamos que existem pastores demais. Quando, porém, conhecemos muitos desses ministros, percebemos que não são, de fato, pastores. Podem até ter um dos outros ministérios bíblicos, mas, por uma distorção tradicional e histórica da igreja, receberam o título de pastor. Isto é , algumas vezes, prejudicial, pois muitos líderes vivem se esforçando para serem o que não são e deixam de fazer aquilo para que foram chamados.

O trabalho do pastor na igreja, não é somente batizar, celebrar casamentos , funerais, pregar sermões, mas, de acordo com Ef.4:11-16 :

- Aperfeiçoar os santos para o desempenho do serviço de cada membro do Corpo de Cristo.

- Edificar o corpo de cristo que é a igreja.

Outros títulos utilizados para o pastor no Novo Testamento são : bispo e presbítero.

Bispo - vem do grego episkopos (episkopos). Indica, não ofício, mas função, o trabalho específico de um pastor dotado de visão administrativa, um superintendente. Ele não faz todo o trabalho, mas organiza, providencia tudo e depois supervisiona. O termo episkopos era dado àquele que tinha a função de vigiar, fiscalizar, principalmente as embarcações. Os gregos e os romanos usavam este termo para designar superintendentes de obras profanas ou sagradas. O bispo como pastor tem a responsabilidade de ver que o serviço seja bem feito. Não se encontra no Novo Testamento o uso do vocábulo bispo no sentido de um oficial eclesiástico que tem autoridade sobre os outros ministros do evangelho.

Presbítero - significa velho, ancião. Na primeira viagem missionária, Paulo e Barnabé, na ida fizeram trabalho evangelístico e público; no retorno, em cada cidade por onde passaram reuniram os convertidos, organizaram igrejas e ordenaram presbíteros (At.14:21-23). Deveriam ser homens de certa idade, firmes na fé, inabaláveis no amor e constantes na obra do Senhor. Eles foram eleitos pela igreja para desempenhar funções pastorais na palavra, nos batismos, na celebração das ceias, etc.

O ministério pastoral surgiu no livro de Atos. Em Jerusalém surgiu o primeiro rebanho pela obra do Espírito Santo. Constituído de 120 pessoas, no princípio, aumentou para 3.120; foi crescendo sempre até chegar a "dezenas de milhares" (At.21:20). No princípio, os doze cuidavam de tudo. Houve problemas e os doze cuidaram da oração e da palavra e outros homens passaram a ser designados para outras tarefas. O trabalho do Senhor foi além de Jerusalém e chegou até Antioquia da Síria. Antioquia organizou trabalhos no continente. Em cada cidade havia presbíteros. Na era apostólica encontramos pluralidade de pastores em cada igreja (Fp.1:1). Os presbíteros recrutados entre os convertidos das igrejas, deveriam ser homens de negócios e de trabalho. Alguns se dedicaram grandemente ao trabalho do Senhor e passaram a dar tempo integral ao ministério e o apóstolo Paulo mandou dar a esses homens, salários dobrados (I Tm.5:17). Pelo retrato que a Bíblia guarda de alguns pastores, homens transformados pelo Espírito Sando, cheios da graça do Senhor, revestidos de poder, conduta exemplar, irrepreensíveis, consagrados, dedicados exclusivamente ao ministério da palavra, bons chefes de família, sérios, operosos e humildes, encontramos reprodução perfeita hoje em muitos obreiros que se sacrificam por Cristo, colocam o Reino de Deus acima de tudo e constituem a galeria daqueles que vivem para glorificar o Senhor. A Bíblia alinha nessa imortal galeria de pastores reais, Tiago, o irmão do Senhor que foi pastor da igreja em Jerusalém. Paulo e Barnabé somaram ao dom apostolar o dom pastoral. Um modelo de pastor nos tempos modernos foi no século passado Charles H. Spurgeon, do famoso Tabernáculo de Londres e milhares de outros famosos ou que viveram na sombra do anonimato, mas realizaram o imortal trabalho de conduzir almas a Cristo e apascentá-las com paciência e amor.

MESTRES

Deus disse : "O meu povo foi destruído porque lhe faltou o conhecimento". (Os.4:6). Essa afirmação nos mostra claramente a importância do ensino da Palavra de Deus. O apóstolo Paulo disse que não queria que os coríntios fossem ignorantes a respeito dos dons espirituais (I Cor.12:1). Certamente, Deus não quer que sejamos ignorante acerca de nenhuma das doutrinas bíblicas, pois isso poderia significar a nossa destruição. Por esse motivo, ele estabeleceu mestres, ou doutores, na igreja. Estes, são pessoas que possuem o dom da palavra do conhecimento e da sabedoria. (I Cor.12:8). Além disso, possuem capacidade intelectual e facilidade de comunicação.

Atualmente, o nome que damos a quem exerce esta função é o de "professor". Entretanto, o professor não é tratado com a mesma importância, honra e respeito que o mestre recebia nos tempos bíblicos. Provavelmente, trata-se de um problema ligado à conjuntura político-social do nosso tempo, ou, especificamente, da nossa nação, onde a educação é relegada a último plano. A Bíblia valoriza o mestre, como acontecia na comunidade judaica. Acima de tudo, vemos que Deus os valoriza e os estabeleceu na igreja. Esse homens desempenham uma nobre função, carregam uma grande responsabilidade (Tg.3:1), que só não é maior do que o galardão que os aguarda na eternidade . (Dn.12:3).

TRABALHO MINISTERIAL EM EQUIPE

Os apóstolos e profetas são os alicerces da igreja, sendo Jesus a principal pedra de esquina. (Ef.2:20-22). Os evangelistas são aqueles que buscam o material para a construção. (Mat.22:9). Os mestres são os edificadores. Os pastores são os que zelam pelo "Edifício de Deus". (Hb.13:17 I Cor.3:5-17).

Essa ilustração nos dá uma idéia aproximada de como é a integração do trabalho dos cinco ministérios.

DIÁCONOS

Outro ministério que figura no Novo Testamento é o dos diáconos. Sua primeira menção se encontra em Atos dos Apóstolos, no capítulo 6, quando, devido às murmurações dos cristãos helenistas, foram escolhidos sete homens para a direção do trabalho social da igreja de Jerusalém.

Hoje em dia, há pessoas que questionam a utilidade dos diáconos em nossas igrejas. Conta-nos o autor de uma de nossas fontes bibliográficas o seguinte :

"Depois duma semana passada no Estado de Virgínia, onde falara numa reunião de diáconos, recebi uma carta da esposa dum diácono que exercia esse ofício numa igreja batista rural. Lera uma reportagem daquela escola de diáconos no jornal da localidade e queria saber se ainda havia razão plausível para a continuação de tal ofício. Haverá algum serviço particular que o diácono possa prestar numa igreja rural com um número reduzido de membros ? Dizia ela que o marido era fiel cristão no serviço da igreja, mas que o ser ele diácono não significava coisa alguma. Na resposta, assegurei-lhe que o ofício de diácono é escriturístico e , quando bem compreendido, oferece uma oportunidade real de servir à igreja."

Que significa para a igreja o ofício de diácono ? Em que afetaria o seu programa, se , por deliberação geral e por amor à paz esse ofício fosse abolido ? Em muitas igrejas batistas a cessação desse ofício seria mera formalidade. E mui possivelmente, algumas igrejas até recebessem com entusiasmo essa mudança. Bom número de diáconos e pastores acham mesmo que nossas igrejas seriam melhor servidas por outros oficiais e comissões eclesiásticas. E tais irmãos não são herejes, nem reacionários; em sua maior parte, estão sinceramente procurando fazer progredir o reino de Deus.

Temos, portanto, que pesar cuidadosamente as situações que vêm provocando esse questionamento. E devemos dar-lhe uma resposta sincera, inteligente e escriturística. Por isso, vamos analisar algumas questões que se formam sobre o assinto :

- Primeiro : O mundo em que vivemos é diferente. Quais as condições que levaram o povo pensante a levantar a questão da necessidade de diáconos ? Antes de tudo, temos que reconhecer o desconcertante contraste entre o mundo do primeiro século e o do século XX. Enorme distância separa o mundo em que a Igreja Primitiva deliberou sobre a necessidade de homens para servirem às mesas deste nosso mundo em que as igrejas hoje lutam por Cristo. O ritmo de hoje é muitíssimo mais acelerado. Nas nossas igrejas atuais vemos refletida a complexidade da vida hodierna. O crescimento das grandes cidades, o desenvolvimento das igrejas em tamanho e número, a multiplicidade das organizações eclesiásticas, bem como as vastas beneficências que as igrejas desejam oferecer ao povo. Tudo isso exige novos métodos de trabalho, organizações modernas e de crescente eficácia. Num mundo como este em que vivemos, mui facilmente nos confundimos no que respeita ao lugar do diácono na igreja.

- Segundo : O ofício do diácono tem sido mal interpretado. Em muitas igrejas está mal definido e mal compreendido o ofício do diácono e o serviço que ele deve prestar. Boa parte dos batistas têm uma idéia errônea acerca do que o diácono deve fazer. Que significa para a igreja o ofício do diácono ? Qual a responsabilidade do diácono ? que função exerce ele ? Se precisamos de diáconos em nossas igrejas hoje, certamente precisamos também reestimar, reapreciar e reapreender o serviço que eles devem prestar.

- Terceiro : muitos choques têm acontecido entre pastores e diáconos. Às vezes assumem a feição de verdadeiros conflitos, e com isso muito se prejudica a influência e a obra dessas igrejas. Alguns pastores acham que não podem trabalhar com seus diáconos. Então, às vezes, ouvimo-los dizer : "Sei muito bem o que devo fazer. Se meus diáconos não concordarem comigo, levarei o caso à congregação, e a assembléia que resolva." Uma situação dessas é, de fato, bem desagradável, e denota enfermidade espiritual. Em algumas igrejas, o diaconato já foi abolido devido a essas desavenças.

Existem igrejas cujos diáconos se apropriaram duma autoridade muito contrária aos ensinos do Novo Testamento. Existe um complexo de "junta", e um pensamento generalizado de que os diáconos é que são os "diretores" da igreja. Nada mais distanciado da índole batista. e do esquema neo-testamentário que esta idéia. Onde prevalecer este errôneo conceito, inevitavelmente surgirão aqueles que afirmam não haver necessidade alguma de diáconos. Sim, a verdade é esta - não precisamos, nas nossas igrejas, de tais diáconos, nem de juntas diaconais dessa espécie.

- Quarto : há muitos outros que servem na igreja. Nas nossas igrejas de hoje há muita gente que ocupa posições de responsabilidade. São professores de Escola Dominical, diretores de departamentos, presidentes de uniões, presidentes de organizações missionárias, membros de corais, e outras atividades afins. Muitas vezes essas pessoas dão muito mais tempo de serviço à igreja do que mesmo os diáconos. Nas igrejas grandes das cidades, o número de irmãos eleitos excede, às vezes, de quinhentos, ou mais, além dos eleitos por classe, ou unidades, e dos que servem por nomeação. E nessas igrejas , o número de diáconos muitas vezes não chega a cinqüenta.

Haverá necessidadede um ofício que dê honra a uns poucos, quando a vasta maioria do povo que realiza a obra das igrejas não está incluída nesse ofício ? Certamente os diáconos não fazem mais jus a essa honra do que os outros, e , no entanto, se lhes confere honra especial por um serviço não específico. Acresce notar que certa revista aconselha que se contitua em diácono a todo aquele que exerce algum ofício na igreja, seja homem, seja mulher. Tal idéia, para muitos batistas, toca às rais do ridículo, mas é certo o raciocínio que a sustenta. Fazem-se até comparações nada aconselháveis entre o grupo chamado dos diáconos e o dos outros obreiros ativos da igreja.

De fato, as dificuldades são reais, e o problema não pode ser esquecido. Muita gente está perguntando qual a necessidade desse ofício. O bem-estar espiritual da igreja exige uma resposta. A maioria dos batistas sente que o diaconato é parte inseparável da vida batista. Mas, as razões da sua existência devem ser claras, concisas, escriturísticas e práticas.

PRECISAMOS AINDA DOS DIÁCONOS ?

Sim ! É a resposta mais adequada. Precisamos dos diáconos em nossas igrejas atuais tanto quanto deles precisaram os da primitiva igreja de Jerusalém. A compreensão exata e o emprego adequado do diaconato constitui resposta clara para os problemas vitais que hoje desafiam as igrejas e , às vezes, emperram o seu glorioso avanço.

O diaconato é um modelo neo-testamentário. O motivo principal que nos faz reconhecer a necessidade da existência do diaconato em nossas igrejas hoje deve ser apresentado em primeiro lugar, pois que todo o resto se relaciona com ele. Precisamos dos diáconos hoje, porque esse ofício é parte inseparável do modelo da igreja neo-testamentária. "Modelo Neo-Testamentário" é uma frase mui significativa para nós, batistas, que gostamos de chamar nossas igrejas de igrejas do Novo Testamento e que não nos filiamos a nenhuma outra sorte de igreja. Estamos perfeitamente convictos de que a igreja precisa derivar suas doutrinas, organização e métodos, e sua comissão igualmente, das páginas do Novo Testamento. Assim, o programa da igreja deve ser organizado em plena harmonia e inteira consonância com os ensinos do Livro Sagrado. Foi a direção do Espírito Santo que levou as igrejas do Novo Testamento a criar o diaconato. A sabedoria divina trouxe à luz o diaconato, dando-lhe existência, e ele tem, assim, uma finalidade divina.

Será que admitimos o diaconato por mera tradição ? Absolutamente, não. No estudo deste ofício, três coisas são verdadeiras e mui significativas quanto à igreja neo-testamentária. Primeira - aquela igreja estava fundada sobre uma relação íntima, a de pecadores salvos, com um Deus santo, por meio de Jesus Cristo. Assim, a igreja não é primeiramente um companheirismo, e sim uma afinidade, cuja pedra fundamental é a confissão duma fé pessoal em Jesus. Em segundo lugar, a igreja é uma organização que salienta a grande responsabilidade que temos para com Deus. E, finalmente, a sua origem divina torna eternos tanto o seu significado como a sua utilidade. Os programas, os planos e a estratégia de Deus nunca ficam fora de tempo ou da moda.

Quais os fatos históricos que devemos considerar aqui ? Relembremos as tormentas que davam contra a igreja primitiva em Jerusalém. Os judeus parecia estarem convencidos de que a morte de Jesus poria fim aos seus problemas teológicos. Achavam que uma vez morto o Chefe dos nazarenos, seus seguidores logo se dispersariam. Algum tempo depois, no entanto, perceberam que eles ganhavam vida nova, vida esta , oriunda da certeza de haverem estado com Jesus, pois testemunhavam que Jesus ressuscitara. Veio o pentecoste, e , com este o poder de Deus e o crescimento da igreja. Uma das questões que foram levantadas contra a igreja foi em relação ao tratamento que davam às viúvas, aos órfãos e aos necessitados. Os crentes helenistas da congregação reclamavam, dizendo que as viúvas hebréias estavam sendo melhor contempladas que as outras. Foi nesse impasse que o Espírito Santo apresentou aos doze uma solução: separariam sete homens de certas habilidades e lhes confiariam os problemas da distribuição. E assim, por sugestão do Espírito Santo, foram eleitos pela congregaçào os sete, para acudir a quaisquer outras necessidades da igreja. "Então os doze convocaram a multidão dos discípulos e lhes disseram : Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete varões de boa reputação... aos quais constituamos sobre este importante negócio. Nós, porém, perseveraremos na oração e no ministério da palavra. (Atos 6:2-4).

No livro de Atos aqueles homens não recebem o nome de diáconos. São quase sempre chamados de "os sete". Contudo, há acordo geral em que a eleição daqueles sete varões qualificados significa realmente o início do diaconato como um cargo na igreja. É no terceiro capítulo da primeira carta a Timóteo que aparecem cuidadosamente esboçadas por Paulo as qualificações dos que deveriam servir à igreja como diáconos. Também no início de sua carta aos Filipenses, lemos isto : "Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os bispos e diáconos". (Filipenses 1:1). Temos aqui forte base escriturística para afirmar que, começando na igreja de Jerusalém, o ofício do diaconato se desenvolvera com a aprovação e a bênção do Espírito Santo.

Deve-se dintinguir entre a obra que o diácono realiza e o ofício em que é investido. O esquecimento desta distinção tem acarretado muitos mal-entendidos acerca do diaconato, porque não existe uma obra que seja feita exclusivamente pelos diáconos, isto é, não há nenhum serviço que ele faça de que outros não possam participar. Essa distinção entre a obra e a posição que ele ocupa origina-se do Novo Testamento, onde encontramos a palavra grega "diaconos" empregada tanto para significar "ministro" como para significar "servo". Tal palavra é usada na maior parte das vezes não para determinar aquele que tem uma posição ou exerce um ofício na igreja, ainda que vejamos claramente, pelas cartas paulinas, existir esse ofício. (Fp.1:1 I Tm.3:8 e 3:12). O Novo Testamento emprega a mesma palavra para se referir em geral a cristãos, como servos, e também a oficiais particularmente separados para um determinado serviço. O diácono tem uma responsabilidade toda especial para com o serviço, mas serve à igreja na mesma base em que são chamados a servir todos os mais cristãos.

Dado que o ofício apareceu pela orientação da sabedoria de Deus, claro está que só deve desaparecer quando dele nos vierem instruções bem claras. O que se faz necessário é uma redescoberta do ofício, um novo estudo das Escrituras a esse respeito, e uma reconsagração no sentido de melhor se avaliar esta criação da vontade divina. O Novo Testamento, de fato, oferece a resposta certa à pergunta sobre a necessidade de diáconos em nossos dias.

Os diáconos foram instituídos com os seguintes objetivos :

- Deixar desembaraçados os ministros para se dedicarem à oração e ao estudo e ensino da palavra de Deus.

- Promover a paz na igreja ao preencher uma carência que estava gerando conflitos.

- Promover o bem-estar dos crentes que seriam beneficiados com o seu serviço.

- Reforçar a liderança da igreja.

CONCLUSÃO

A Bíblia nos apresenta diversos ministérios eclesiásticos. Se Deus os estabeleceu, é porque eles são necessários e indispensávis. O que se vê, entretanto, é que apenas o ministério pastoral é valorizado atualmente. Creio que os outros ministérios existem, mas não são reconhecidos. Quando são, parecem estar em um nível bem abaixo do pastorado, e talvez até abaixo do diaconato. As igrejas , em geral, não investem na formação nem na remuneração de outros ministros. Por exemplo : os evangelistas, exceto os grandes vultos internacionais, não são vistos como ministros, a não ser que sejam também pastores.

Quem perde com tudo isso ? A própria igreja. O que vemos em muitas delas ? A liderança está centralizada nas mãos de um homem - o pastor. A igreja torna-se então um retrato desse líder. Se limita aos seus limites e se especializa em suas especialidades e dons. Daí o fato de existirem igrejas "especializadas" em cura, ou expulsão de demônios, ou profecias, ou libertação de viciados, etc. Isto não é ruim. O mal está do outro lado da moeda. Uma igreja "especializada" em curas normalmente é deficiente no ensino da Palavra de Deus. Aí começam os problemas e surgem as heresias. Para evitar esse tipo de situação Deus estabeleceu ministérios vários e distintos na igreja. Precisamos valorizar cada um deles. É necessário descobrir aqueles que os possuem, investir na formação e na remuneração desses ministros. A liderança deve ser praticada pela equipe ministerial. A igreja que assim fizer, será equilibrada, crescerá naturalmente e terá saúde espiritual.

BIBLIOGRAFIA

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HURST, D.V. - E Ele Concedeu Uns Para Mestres - Editora Vida

NORMAN, HUSSEL - O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo - Milenium Distribuidora Cultural Ltda

BÍBLIA SAGRADA - Versão Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeira - Sociedade Bíblica do Brasil

BORN, A.VAN DEN - Dicionário Enciclopédico da Bíblia -

Editora Vozes Ltda

NAYLOR, ROBERT - O Diácono Batista - Casa Publicadora Batista

FERREIRA, AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA - Novo Dicionário da Língua Portuguesa - Editora Nova Fronteira

TOGNINI, ENÉAS - Eclesiologia - Edições Convenção Batista Nacional

O Culto Bíblico

INTRODUÇÃO

Muitas vezes, as pessoas se perguntam por quê existem. Para quê fomos criados? A Bíblia nos mostra que existimos para o louvor e glória de Deus. Sendo este um fato espiritual, é natural concluirmos que o culto está vinculado à nossa natureza. Nascemos com um "instinto cultual". Tal afirmativa é endossada pelos historiadores, antropólogos e arqueólogos. Em todas as civilizações de todos os tempos, encontra-se presente o fenômeno chamado "culto". O culto é a expressão da fé. É o tributo de honra, louvor e serviço àquele que se venera. Quem é "aquele" ? Bem... nesse ponto as civilizações não se entendem. Os alvos do culto humano têm sido os mais diversos possíveis. Há quem adore o sol, a lua, as estrelas, os rios, os animais. Outros veneram o seu semelhante, vivo ou morto, ou imagens de sua própria criação. Mais longe vão os que espiritualizam o culto : adoram espíritos que são identificados por centenas ou milhares de nomes. Em muitos povos foi constatada também a adoração a um "ser supremo", criador de todas as coisas. Provavelmente, tais pessoas tiveram algum tipo de experiência espiritual genuína. Entretanto, é através do povo de Israel que o criador se apresentou à humanidade. Jesus disse : "Vós adorais o que não sabeis. Nós adoramos o que sabemos, porque a salvação vem dos judeus". (João 4:22). Aleluia ! Aí está aquele que deve ser o alvo de culto de todo ser humano: o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Os judeus são o nosso ponto de referência religiosa na história. Portanto, convém que nos dediquemos a conhecer aspectos do seu culto que nos serão de grande utilidade no entendimento de nossas práticas atuais.

Enquanto muitos se perdem em cultos vãos, adorando ao que não se deve, a Bíblia nos mostra que Deus está à procura de verdadeiros adoradores. Antes de buscar pregadores, intercessores, evangelistas, etc, o Senhor procura pessoas que se dediquem a cultuá-lo. O culto a Deus está fundamentado no conhecimento que se tem dele. À medida em que o conhecemos, o adoramos. O verdadeiro culto é um relacionamento purificador e transformador com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Que o Senhor nos ajude a encontrar as diretrizes do culto que o agrada. Esta questão é a principal. Normalmente, temos o hábito de fazer avaliações dos cultos em que participamos. Depois dizemos : "Não gostei do culto hoje", ou , "fiquei muito satisfeito com o culto". Falamos como se o culto fosse dirigido a nós. Deus nos livre de usurparmos a glória que lhe é devida. Que ele nos abençoe e que possamos ser encontrados como aqueles que adoram ao Pai em espírito e em verdade.

PROPOSTAS PARA MELHORAR A SITUAÇÃO DA IGREJA

1. Uso mais extensivo das Escrituras

É necessário pensar como a Palavra de Deus deve ser usada mais extensivamente em nosso meio. Sabemos que, por natureza, não somos bons. Se algum bem existe em nós, vem de Deus. E o meio poderoso para isso acontecer é a Palavra de Deus, uma vez que a fé se desperta pelos Evangelhos, a lei regulamenta as boas obras e freia os nossos impulsos mundanos. Quanto mais perto estamos da Palavra de Deus, mais fé e mais frutos teremos.

Pode parecer que estamos familiarizados com a Palavra de Deus, pois em muitos lugares existem pregações diárias ou muito freqüentes. Não desaprovo a pregação na qual é lido e explicado um texto bíblico, pois eu mesmo faço isso. Mas não é o suficiente. Em primeiro lugar, sabemos que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (II Tm 3.16). Toda a Escritura, sem exceção, deve ser conhecida pela comunidade, se quisermos ter todos os benefícios necessários. Se colocarmos juntos todos os textos bíblicos lidos e explicados a uma comunidade, ao longo de muitos anos, apenas uma pequena parte da Escritura será compreendida. O restante não é ouvido pela comunidade, ou é ouvido apenas um ou outro verso citado isoladamente, no decorrer de uma prédica, sem a indispensável explicação do contexto. Em segundo lugar, o povo tem pouca aptidão para compreender o significado das Escrituras, exceto naqueles textos a ele expostos. Menos capacidade ainda tem para praticá-las, como a edificação espiritual de cada um requer. Apesar de a leitura bíblica, a sós, em casa, ser uma prática altamente recomendável, não é praticada pelo povo.

Deve-se pensar que se não é chegada a hora de a Igreja ser alertada a apresentar ao povo novas maneiras de ler as Escrituras, que não seja os costumeiros sermões baseados em textos do calendário litúrgico anual.

Isso deve ser feito, em primeiro lugar, pela leitura sistemática das Sagradas Escrituras, especialmente o Novo Testamento. Não será difícil para um chefe de família Ter uma Bíblia, ou pelo menos um Novo Testamento, e lê-lo diariamente para sua família. Se não puder ler, qualquer outro membro da família pode fazê-lo [...].

Uma segunda sugestão a ser feita para encorajar o povo a ler privativamente a Bíblia: nos cultos públicos, os livros seriam lidos, um após o outro sem maiores comentários (a menos que alguém queira apresentar um breve resumo). Isso seria feito para a edificação de todos, em especial para aqueles que definitivamente não podem ler ou não têm o seu próprio exemplar das Escrituras.

A terceira sugestão é a reintrodução do antigo e apostólico modelo de assembléia da Igreja. Além de nossos costumeiros cultos, outras reuniões seriam realizadas, como o apóstolo Paulo as descreve em I Coríntios 14.26-40. Ninguém se levantaria para pregar, mas aqueles abençoados com dádivas e conhecimentos podem falar e apresentar opiniões piedosas, fazendo sugestões a seres eventualmente discutidas por todos. Contudo, isso deve ser feito em ordem, para evitar tumulto e confusão. Os diversos pastores do local têm a obrigação de estar presentes à reunião, ou, pelo menos, alguns irmãos mais instruídos nas letras sagradas, reunidos sob a liderança de um pastor piedoso, a fim de aumentar seus conhecimentos das Escrituras. Lendo-as junto e discutindo fraternalmente o sentido de cada verso, serão capazes de nele discernir seu significado e utilidade para a edificação de todos. Aqueles que não estiverem satisfeitos com a compreensão da matéria, poderiam expressar suas dúvidas e pedir mais explicações. Por outro lado, os que tivessem feito mais progresso (incluindo os pastores) teriam o direito de expor ao povo sua compreensão do texto. Então, tudo o que for exposto, na medida em que acordam com o Espírito Santo, nas Escrituras, deve ser examinado pelos outros irmãos (especialmente os pastores) e aplicado para a edificação de todos os que freqüentam a reunião. Tudo deve ser preparado, levando-se em conta a glória de Deus, o crescimento espiritual dos participantes e também suas limitações. Qualquer sinal de discórdia, polêmica, autoprojeção, deve ser evitado ou eliminado, especialmente pelo pastor que dirige a reunião.

Esperam-se grandes benefícios dessas reuniões. Os pastores conhecerão melhor os membros de sua comunidade, suas fraquezas e crescimento na doutrina e na piedade. Um elo de confiança entre pastor e comunidade pode ser estabelecido, o que será de interesse para ambos. O povo tem uma excelente oportunidade para exercitar seu amor pela Palavra de Deus, fazer perguntas (que na maioria das vezes não têm coragem de discutir com seus pastores) e obter respostas. Em pouco tempo, hão de crescer em suas experiências pessoais, tornando-se capazes de dar melhor instrução religiosa a seus filhos e empregados. A ausência de tais reuniões, as prédicas não são compreendidas adequada e plenamente, pois não há tempo e oportunidade para a reflexão ou, quando o sermão termina, grande parte de seu conteúdo já foi esquecido (o que não acontece numa discussão). A leitura da Bíblia, pessoal ou em casa, onde quem pode ajudar na compreensão do significado e propósito de cada verso, está ausente, o leitor não consegue a explicação que gostaria de Ter. O que falta nesses momentos (pregação pública e leitura pessoal) pode ser encontrado nas reuniões propostas. Não será uma carga pesada para os pastores, nem para o povo, mas assim estará sendo cumprida a exortação do apóstolo Paulo (Cl 3.16): “Instrui-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus com salmos, hinos e cânticos espirituais, com gratidão em vossos corações”. De fato, sejam entoados cânticos nas reuniões, para o louvor de Deus e inspiração dos participantes.

O diligente uso da Palavra de Deus não consiste apenas em ouvir sermões, mas, também, na sua leitura, meditação e discussão (Sl 1.2), principais instrumentos de reforma dos costumes religiosos e sociais, que ocorram da forma proposta ou de qualquer outra. A Palavra de Deus é a semente da qual todo o bem cresce. Se conseguirmos que o povo busque, com diligência, no livro da vida, sua alegria, a vida espiritual, será maravilhosamente fortalecido e transformado.

O que mais Lutero queria era conduzir o povo à diligente leitura da Bíblia. Hesitou muito em deixar seus escritos serem publicados, com receio de que isso desviasse o povo da leitura da Bíblia.

Um dos principais erros que levou a política papal ao fracasso foi conservar o povo na ignorância e controlar as consciências, proibindo a leitura da Escritura (na medida em que ainda podem, essa proibição é mantida). Por outro lado, um dos principais propósitos da reforma foi devolver ao povo a Palavra de Deus, escondida na sacristia (e a Palavra foi o meio mais poderoso pelo qual Deus abençoou a reforma). Essa continua sendo o principal instrumento, agora que a Igreja deve ser colocada em melhores condições, superar a aversão que muitos têm da Escritura e negligência de seu estudo, estimulando o buscar ardente e zeloso de seus ensinamentos.



2. Exercitamento do sacerdócio universal

Martinho Lutero sugere um outro meio, completamente compatível com o primeiro. A Segunda proposta é o estabelecimento e prática diligente do sacerdócio universal. Não se podem ler os escritos de Lutero, com certo cuidado, sem se observar que ele advoga o sacerdócio universal, segundo o qual todos os cristãos (e não apenas pastores) foram feitos sacerdotes pelo Salvador, ungidos pelo Espírito Santo e dedicados para o exercício de atos espirituais-sacerdotais. O apóstolo Pedro não estava se dirigindo aos pastores quando escreveu (I Pe 2.9): “Vós sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz...” Que quiser saber com profundidade qual a opinião de nosso reformador sobre as funções espirituais, precisa ler seus tratados aos boêmios (De instituendis ministris Ecclesiae ad Clarissimum Senatum Praggensem Bohemiae, W A 12,169-196) sobre como os pastores devem ser escolhidos e empossados em suas funções. Ali se pode ver como ele demonstra, esplendidamente, que as funções espirituais espirituais estão abertas a todos os cristãos, sem exceção. Apesar de as tarefas regulares e públicas serem atribuídas aos pastores escolhidos para isso, podem também ser desempenhadas por outros, em casos de emergência, especialmente aquelas exercitadas nos lares.

Por uma obra do amaldiçoado demônio, junto ao papado, todas as funções foram atribuídas, com exclusividade, ao clero, excuindo-se delas o resto da cristandade, com se não fosse adequado aos leigos o estudo da Escritura, a instrução, a admoestação, conforto do próximo. Não se podia fazer privativamente aquilo que os pastores realizavam em público, como se fosse exclusividade do clero. Como conseqüência, os leigos se afastaram daquilo que, por direito, lhes pertencia, ocorrendo grandes ignorâncias e desordem na vida do laicato. Por outro lado, os membros do estamento espiritual podiam fazer o que queriam, pois ninguém se importava, nem levantava objeção. Esse pressuposto monopólio do clero, juntamente com a proibição de ler a Bíblia, é um dos principais instrumentos pelos quais o papado estendeu seu poder sobre os pobres cristãos e, se as condições lhe forem favoráveis, ainda os oprime. O maior sofrimento que se pode causar ao papado é, como Lutero fez, proclamar que todos os cristãos foram chamados para o exercitamento das funções espirituais (apesar de não chamados para o exercitamento público das funções, pois isso exigiria autorização prévia da comunidade). Isso não lhes é permitido, mas, se desejam ser verdadeiramente cristãos, são obrigados a desempenhar tais funções.

Cada cristão não é só compelido a oferecer-se a si mesmo e o que possui, suas orações, ações de graças, boas obras, ofertas etc; como, também, a estudar com seriedade a Palavra do Senhor, ensiná-la a outros, com o Dom que lhe foi dado, especialmente os que habitam sob o seu teto, orientar, exortar, converter e edificá-los; observar suas vidas, orar por todos e, na medida do possível, preocupar-se com a salvação deles. Se isso é verdade no que se refere ao interesse do cristão para com os outros, também é verdade no que se refere a si mesmo. Ele deve cuidar-se e dedicar-se ao que é importante para a sua própria edificação. Por outro lado, a complacência existente no momento decorre do fato de que esse ensinamento não é praticado.

As pessoas pensam que isso não lhes diz respeito. Imaginam que, como eles foram chamados para seus trabalhos, no escritório, negócio ou comércio, e como o pastor não foi chamado para essas coisas, nada têm a ver com as coisas espirituais. O pastor, segundo eles imaginam, é chamado para o exercitamento dos atos dessa natureza, ocupando-se com a Palavra de Deus, orando, estudando, ensinando, admoestando, confortando, orientando, etc., enquanto ele não se envolvem com tais coisas. Imaginam que estariam se envolvendo indevidamente nas tarefas exclusivas do pastor. Nem se menciona o fato de pensarem que não devem cuidar de seus pastores, admoestando-os fraternalmente quando eles negligenciam algo, e apoiando-os em seus esforços.

Nenhum pastor será prejudicado se os membros de sua comunidade exercitarem esse sacerdócio universal. Uma das razões pelas quais o pastor não pode fazer tudo, é porque se sente muito fraco e sem apoio. É incapaz de fazer tudo o que deve ser feito para a edificação de muitas pessoas, confiadas ao seu cuidado pastoral. Todavia, se os sacerdotes leigos fazem a sua parte, o pastor, como dirigente e irmão mais velho, sente-se apoiado e fortalecido para realizar suas obrigações e atos pastorais. Assim, o fardo não será tão pesado.



3. Prática e conhecimento do Cristianismo

Juntamente com essas duas propostas, existe uma terceira: o povo deve ser levado e acostumado a crer que isso não são meios suficientes para o conhecimento da fé cristã, pois o Cristianismo consiste fundamentalmente em prática. O nosso Salvador repetidamente identificou o amor com a marca distintiva dos cristãos (Jo 13.34-35; 15.12; 1 Jo3.10,18; 4.7-8,11-13,21). Em sua velhice, João costumava dizer pouco mais do que isso: “Filhos, amai-vos uns aos outros” (Jerônimo.In: Comentário da Epístola aos Gálatas, III,6). Seus discípulos e ouvintes queriam saber a razão dessa repetição interminável e perguntaram-lhe por que insistia sempre nessa exortação. Ele respondeu: “Porque é o mandamento do Senhor e é suficiente, se for cumprido”. Sem dúvida, o amor é tudo na vida do homem que tem fé e que é salvo por sua fé. O cumprimento da lei de Deus é o amor.

Se podemos despertar um ardente amor entre os cristãos, primeiramente aos irmãos, depois a todos os homens (pois os dois, amor fraternal e amor, em geral, devem complementar-se segundo 2 Pe 1.7) e colocar isso em funcionamento, praticamente tudo o que desejamos será realizado. Todos os mandamentos são resumidos no amor (Rm 13.9). O povo não pode apenas ser ensinado a amar o próximo, nem só advertido sobre os perigos do amor-próprio, mas, sobretudo, exortado a praticar o amor. Os cristãos devem acostumar-se a não perder oportunidade de servir o outro com atos de amor e a sondar seus corações para saber se o motivo que os impulsiona é o verdadeiro amor, ou qualquer outro. Se não agredidos, ofendidos, convém controlarem seu sentimento de vingança, abrirem mão de seus direitos e temerem que seus corações possam traí-los com sentimentos de hostilidade. Devem buscar oportunidade de fazer o bem a seus inimigos, a fim de que tal autocontrole possa ferir o velho Adão, sempre inclinado à vingança, e implantar no coração de seus inimigos o mesmo amor que os move.

Para esse fim e para o crescimento do Cristianismo, seria bom se aqueles que resolverem seguir fielmente o caminho de Cristo, entrarem em contato confidencial com seus confessores ou com outros cristãos experientes e sábios, contando suas novas maneiras de viver, as oportunidades que têm de praticar o amor cristão e como foram aproveitadas ou negligenciadas. Isso é importante, pois oferece a possibilidade de avaliar a própria conduta e receber instruções sobre novas formas de procedimento. Decidam-se firmemente a obedecer os conselhos dados o tempo todo, de acordo com a vontade de Deus.

Se alguém ficar em dúvida sobre fazer ou não para o próximo, é sempre melhor fazer do que deixar de fazê-lo.


6. Pregação e edificação

Além desses exercitamentos que pretendem desenvolver a vida cristã dos estudantes, é necessário que os professores se preocupem com aquilo que seus alunos vão precisar quando se tornarem pastores. Por exemplo, treine-se o estudante a instruir os ignorantes, consolar os enfermos e, especialmente, preparar bons sermões. Seja-lhes mostrado que, no sermão, todas as coisas devem convergir para um propósito. Como Sexta proposta, a fim de que se encorage a Igreja Evangélica a buscar melhores condições, eu diria que o sermão deve estar voltado para esse propósito, e alcance o coração do ouvinte da maneira mais eficaz possível.

Há provavelmente poucos lugares em nossa Igreja nas quais não haja muitos sermões sedo pregados. Porém, as pessoas piedosas reconhecem que pouco se tem aproveitado de tais prédicas. Existem pregadores enchendo-se de tantas informações, que convencem os ouvintes de que são homens muito instruídos, contudo, os que os ouvem não conseguem entender o que dizem. Incluem nelas muitas palavras estrangeiras, embora, possivelmente, nenhum ouvinte conheça tais línguas. Muitos pregadores não se preocupam com o assunto escolhido e em desenvolvê-lo de tal modo que, pela graça de Deus, a congregação possa dele aproveitar para a vida e a morte. Pelo contrário, preocupam-se com a introdução, com sua boa forma e com um clímax de efeito, e que as partes sejam tratadas de acordo com as regras da oratória e cheias de beleza, etc. Isso não pode acontecer. O púlpito é um instrumento divino para a salvação das pessoas. Por isso, nele todas as coisas devem ser direcionadas para esse propósito. As pessoas comuns, das quais a comunidade é composta em sua grande maioria, não podem ser esquecidas pelo pregador preocupado em agradar os letrados que são poucos e, geralmente, não comparecem ao culto.

O Pequeno Catecismo, de Lutero (1529), que contém os primeiros rudimentos do Cristianismo e do qual as pessoas aprenderam a fé, deve continuar a se usado, só que mais diligentemente na instrução das crianças e também dos adultos (a kinderlehre era a reunião para estudos do catecismo, dirigido especialmente para as crianças, feita no Domingo à tarde). O pregador não pode abandonar essa prática. Pelo contrário, deve lembrar às pessoas, em seus sermões, aquilo que aprenderam no catecismo. Não precisa envergonhar-se de fazer isso.

Deixo de lado alguns comentários adicionais a respeito dos sermões. Considero isso como fundamental: a nossa religião cristã é composta de homens regenerados, cujas almas estão repletas de fé e expressam-se em frutos da vida. Assim, o sermão não pode Ter outro objetivo a não ser cultivar a fé e seus frutos. Por outro lado, os preciosos benefícios de Deus, dirigidos ao homem interior, devem estar presentes de forma que a fé se fortaleça cada vez mais. Por outro lado, não podemos contentar-nos em afastar as pessoas dos vícios exteriores e levá-los à prática de virtudes exteriores, coisa que a ética dos pagãos também pode fazer. Nosso objetivo é despertar e cultivar a fé e seus frutos. Tudo aquilo que não proceder desse fundamento é mera hipocrisia. Devemos, pois, acostumar as pessoas a voltarem-se para as coisas interiores (amor a Deus e ao próximo) e depois procurarem agir corretamente.

Enfatize-se que o significado divino da Palavra e sacramentos se relacionam no homem interior. Então, não é suficiente ouvir a Palavra com o ouvido exterior. Ela deve penetrar em nosso coração para que possamos escutar o Espírito de Deus. Em outras palavras, o Espírito fala ao nosso coração na medida em que nele faz morada. O homem sente vibrante emoção e conforto no selo do Espírito (Ef 1.14; 4.30) e no poder da Palavra. Igualmente, não é suficiente ser batizado, pois o homem interior (onde Cristo é colocado no ato do batismo – Gl 3.27) deve conservar e testemunhar Cristo na vida exterior. Tampouco, não é suficiente receber a Santa Ceia exteriormente, mas o homem interior deve ser, em verdade, nutrido com aquele alimento abençoado. Da mesma maneira, não é suficiente orar de modo superficial, só com a boca, pois a melhor e verdadeira oração vem do homem interior; ela tanto pode expressar-se com palavras, como pode permanecer muda no fundo da alma. No último caso, Deus encarregar-se-á de achá-la e levá-la ao seu trono. Finalmente, não é suficiente adorar Deus num templo exterior, pois o homem interior adora melhor a Deus em sua alma, aconteça isso num templo exterior ou não (1 Co 3.16).

Concluindo, convoco insistentemente o gracioso Deus e doador de todas as boas coisas, que no passado permitiu que a boa semente de sua Palavra fosse semeada por seus fiéis servos, e que poderosamente abençoou muitas daquelas sementes, caídas em corações piedosos, para que dessem muitos frutos; [...] que muitos, com corações piedosos, busquem a sua edificação, nos domingos, nesses sermões e nas Escrituras Sagradas; possam, finalmente, entregar a Deus os frutos produzidos, com ação de graças. Oro, também, para que os pastores sejam reavivados em suas pregações e voltam-se ao coração do Cristianismo [...] com simplicidade e poder. Tudo seja para a glória de Deus e o progresso de seu Reino, por amor de Jesus Cristo. Amém.